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Fogo amigo

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Foto montagem – TEM Sustentável

Fogo amigo

Uma das maiores dificuldades das usinas de reciclagem de resíduos da construção civil no Brasil é a aceitação do produto por parte dos profissionais da construção e a cultura hermética do segmento, especialmente em absorver novidades e a se responsabilizar pelo resíduo gerado.

Atualmente, segundo dados da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição no Relatório Setorial 2015, o país tem 310 usinas de reciclagem de resíduos da construção, muitas operando em cidades de médio porte compartilhando com outra usina de reciclagem o mercado de agregado reciclado e recepção de entulho.

Isto tem sido comum em cidades médias, pois o mercado já amadureceu e consegue dar condições de operação a dois empreendimentos.

O mercado amadureceu, porém, a mentalidade das usinas, digo dos empresários, não.

Num mercado minúsculo onde cada metro cúbico vendido conta, há incrivelmente empresários destoantes da realidade do mercado.

O fato de a construção civil não absorver o agregado reciclado e não se responsabilizar pelo resíduo gerado ensejaria uma aproximação das usinas de reciclagem para fortalecer o segmento da reciclagem, ou seja, criar sinergia para aumentar o tamanho do mercado, preservando as condições mínimas de concorrência.

Isto seria o ideal, porém, não acontece.

A união das usinas de reciclagem proveria mais força para lutar por direitos do setor e exigir dos governos uma posição mais rigorosa quanto aos descartes incorretos de entulho, bem como, sistemas mais eficientes de controle do CTR e até introdução do agregado reciclado em leis e tabelas de compras, aumentando ainda mais o tamanho do mercado.

A união faz a força, já diziam por aí.

Contudo, a visão tacanha de alguns empresários faz o contrário. Exatamente, o contrário. Promove a desunião e a desorganização.

A insensatez chega a um ponto de o empresário desejar ardentemente o fracasso de seu colega, apenas para ficar só num mercado minguo.

É triste ver um cenário onde os pares não se conversam e, que pior, se anulam.

A necessidade de integração, parceria e organização é imperante, uma vez que, o mercado de venda de agregado reciclado é definitivamente um “ovo”.

Para se ter uma ideia, uma cidade com aproximadamente um milhão de habitantes, as usinas de reciclagem de entulho produzem algo em torno de cinco mil metros de agregado reciclado, vendem três mil metros cúbicos. Isto não é nada perto do mercado de agregados naturais. Somos um grão de areia perto das pedreiras e dos portos de areia.

 A necessidade premente nesse momento é unidade. Independentemente de a usina ser concorrente, o empresário, ciente de seu papel, precisa entender que para expandir e criar demanda para o agregado reciclado ou para a recepção de entulho tem que se aliar aos pares do mesmo setor, ou seja, outras usinas de reciclagem de entulho.

Infelizmente, a questão mercadológica se sobrepõe a necessidade de sobrevivência, pois só isso justifica uma relação tão áspera entre as usinas, prioritariamente no interior, onde a disputa se mostra mais acirrada.

Um empresário com visão estratégica enxergaria uma oportunidade em ter mais uma usina de reciclagem de entulho em sua cidade ou próximo a sua planta. Um empresário míope ou tacanho, enxerga um problema, mais uma dificuldade.

Obviamente que aqui eu trato de usinas licenciadas e operando em consonância com as leis locais e as normas técnicas sobre o empreendimento.

O fogo amigo acontece justamente por uma das partes não reconhecer que o outro tem o mesmo direito, ainda que seja em um nicho dentro do mercado de recepção de entulho ou venda de agregado reciclado.

Usinas de reciclagem de entulho de todo o Brasil, uni-vos!

Só a união fará com que o nosso segmento tenha a importância merecida e seja, definitivamente, um player competitivo na construção civil.

A reciclagem de resíduos da construção civil e demolição nasceu como uma proposta inovadora e ambiental, acima de tudo, e precisa de profissionais dispostos a lidar com desafios além dos mercadológicos, bem como, interpessoais.

 

Autor

Levi Torres, Graduado em administração em São Paulo, foi presidente da empresa júnior Radial. Liderou por dois anos a associação do setor de reciclagem de óleos e gorduras vegetais e produção de biodiesel. Em outubro de 2010, idealizou e foi um dos responsáveis pela fundação da ABRECON – Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição, a qual é coordenador, participando ativamente de comitês e grupos de trabalho que defendem o interesse do segmento de RCD. É o atual secretário do CB-18 – Comitê Brasileiro para revisão da norma técnica da ABNT para aplicação de agregado reciclado.

 






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