domingo , 18 fevereiro 2018
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Jardins que despoluem?

Foto - Mundo Amazônia
Foto – Mundo Amazônia

Como as plantas podem representar uma estratégia na recuperação da qualidade das águas urbanas

As cidades brasileiras não tiveram um planejamento urbano que acompanhasse o seu rápido crescimento, dessa forma, as intensas atividades industriais somadas à carência em infraestrutura resultaram na alta degradação dos recursos naturais. Em diversas regiões é possível identificar problemas de infraestrutura relacionados à drenagem de águas pluviais, abastecimento de água, coleta de resíduos e rede coletora de esgoto. De todas as dificuldades decorrentes do processo de urbanização brasileiro, talvez uma das mais graves possa ser identificada na área de saneamento. Os habitantes urbanos estão diariamente expostos à diferentes tipos de poluição nocivas à saúde; em nível mundial, são pelo menos 3 bilhões de pessoas fazendo uso de água contaminada, sendo que mais de 5 milhões de pessoas morrem anualmente devido a doenças de veiculação hídrica. Os problemas se agravam à medida que as cidades crescem e junto com elas o aumento das demandas e os problemas decorrentes da superexploração, poluição e má gestão dos recursos naturais podem multiplicar e complicar cada vez mais a dinâmica da vida na cidade.

Um dos setores mais prejudicados devido a carência em infraestrutura urbana é o da água. Em diversas cidades do país, efluentes domésticos e industriais são lançados em rios, lagos e córregos sem nenhum tipo de tratamento; essa é a principal forma de contaminação da água superficial na atualidade. Porém, a degradação dos recursos hídricos também ocorre de forma indireta devido a poluição do ar, solo e resíduos, os eventos chuvosos funcionam como grandes “lavagens” da superfície da bacia e do ar atmosférico, dessa forma os escoamentos superficiais ficam carregados de poluentes. Em um primeiro momento, acreditou-se que a causa da degradação dos corpos hídricos urbanos era atrelada apenas ao lançamento pontual de efluentes domésticos não tratados e despejos industriais. No entanto, o escoamento superficial dos eventos chuvosos tem grande contribuição no transporte de cargas poluidoras até os corpos d’água receptores, estima-se que 25% da poluição das águas urbanas provém da poluição difusa.

 

L'Oréal, Shanghai, China
L’Oréal, Shanghai, China

 

A modificação da paisagem para o desenvolvimento das cidades afeta diretamente o uso e ocupação do solo na escala da bacia hidrográfica, elevando a taxa de impermeabilização desse solo e, consequentemente, reduzindo a taxa de infiltração e aumentando o escoamento superficial. Dessa forma, a questão do manejo das águas urbanas se torna crítico quando analisamos a quantidade de solos impermeabilizados nas cidades. O impacto dessa intervenção é gravíssimo, resultando em diminuição do nível dos aquíferos, aumento do nível de poluição das águas superficiais, assoreamento de rios e lagos, desmoronamentos, alagamentos etc.

Atualmente, no Brasil, não há medidas reguladoras para lidar com essa fonte de contaminação, dessa forma as iniciativas voltadas ao correto manejo das águas urbanas devem ser disseminadas em consonância à corrente do desenvolvimento sustentável, pois, de fato, a ação antrópica sem controle nos dias de hoje, representam uma grande ameaça à prosperidade. Alternativas para mitigar e controlar a poluição a fim de garantir a qualidade dessas águas, vem sendo difundidas e atreladas ao paisagismo urbano, em cidades como Seattle e Portland, por exemplo, ele é projetado como parte integrante de uma rede de espaços abertos associados a tecnologias destinadas a solucionar problemas urbanos relacionados à água, clima e ecologia. O paisagismo multifuncional recria ambientes naturais de forma otimizada para melhor suportar eventos chuvosos, variações climáticas e demandas ambientais.   

São cada vez mais expressivos os exemplos de cidades que entram na vanguarda da sustentabilidade ao aplicar soluções alternativas para as diversas problemáticas urbanas. Nesse contexto, a área de biotecnologia vem se desenvolvendo com o objetivo de aquecer a corrente ecológica e o movimento urbanismo sustentável, que valoriza o meio ambiente em integração com o desenho urbano e sistemas naturais.

 

Parc du Chemin-de-l'Ile, Nanterre, França
Parc du Chemin-de-l’Ile, Nanterre, França

 

Dessa forma, a hipótese trabalhada nessa pesquisa pressupõe que uma das soluções mais adequadas para a gestão sustentável das águas urbanas com foco no controle e estabilização das águas pluviais é a técnica de fitorremediação aplicada à infraestrutura verde. A fitorremediação é uma técnica que explora a propriedade de interação entre as bactérias localizadas nos rizomas das plantas e os diferentes tipos de contaminantes (orgânicos e inorgânicos). Consiste basicamente no uso de plantas para remover, reduzir ou imobilizar contaminantes presentes na água, no solo e no ar. Essa interação promove transformações químicas nas moléculas que resultam em formas não tóxicas, ou seja, inofensivas ao ecossistema.

A vegetação atua diretamente nas variáveis hidrológicas, principalmente na interceptação vegetal (copas, folhas, troncos e raízes), capaz de reter de 10% a 20% da precipitação total anual. Em meio à cidade, as áreas de interceptação vegetal podem ser projetadas em conjunto com depressões no solo para promover a retenção e armazenamento das águas pluviais; esse conjunto é denominado abstração e se traduzem em estruturas como biovalas, jardins de chuva, canteiros centrais, parques e praças. Também conhecidas como áreas de Biorretenção, essas estruturas verdes mimetizam a capacidade natural de absorção e infiltração, colaborando para estabilidade hidráulica.

A adoção de intervenções com técnicas atreladas ao paisagismo é capaz de prevenir, tratar e armazenar o escoamento e os poluentes associados, atuando não apenas na qualidade das águas, mas também como um mecanismo de resiliência na relação homem-natureza. Os dispositivos de biorretenção podem ser uma grande estratégia para o manejo de águas urbanas de maneira multifuncional: paisagismo, lazer, recuperação de áreas degradadas, valorização ambiental, melhoria da qualidade do ar e da água, diminuição das amplitudes térmicas, além de favorecer o desenvolvimento da fauna e flora locais, fortalecendo o ecossistema e induzindo a resiliência.

A técnica de fitorremediação proporciona valorização do paisagismo urbano através da multifuncionalidade, uma vez que vai de encontro à gestão das águas urbanas; a implantação de infraestruturas verdes proporciona diversas vantagens e benefícios dentre eles está a aproximação das pessoas, que passam a interagir mais à medida que usam um espaço comum; a valorização da qualidade de vida devido ao conforto térmico e visual; e a melhoria dos parâmetros de poluição, água e ar, no meio ambiente local.

 

Maria Estela Ribeiro Mendes – me.ribeiromendes@gmail.com

Arquiteta e Urbanista. Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Campinas. Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, Distrito de Barão Geraldo, Campinas, SP, Brasil, 13083-970. Mestranda em Arquitetura Tecnologia e Cidade, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo

 

Silvia Aparecida Mikami G. Pina – smikami@fec.unicamp.br

Arquiteta e Urbanista. Professora PhD Livre Docente pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo

 

 

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