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Materiais com alegações verdes devem ter comunicação transparente

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Definir alguns materiais como sustentáveis requer estudos e ensaios comprovados, com informações claras e didáticas

A incorporação da sustentabilidade começou a ganhar mais evidência com as certificações ambientais de empreendimentos e, apenas a partir de conceitos sustentáveis contemplados pelos chamados greenbuildings, o tema passou a ser considerado também no nível estratégico e de processos internos pelas empresas de materiais da construção civil.

Um dos maiores desafios do setor se concentra na escolha de materiais que façam parte das edificações e atendam às expectativas em relação à qualidade, durabilidade, segurança, impacto ambiental, entre outros. Se por um lado há hoje uma enorme diversidade de produtos e fabricantes, por outro há ainda uma carência de normas técnicas e de fiscalizações quanto ao desempenho desses produtos.

Diante dessa realidade, os riscos da escolha por materiais mais eficientes recaem sobre quem especifica e os riscos do desempenho e da manutenção sobre o consumidor, que compra ou aluga um imóvel com componentes sem especificações claras ou conformes.

Por isso é importante que haja informações específicas sobre cada produto. “A maioria das divulgações de produto hoje comunicam as mesmas características: alta durabilidade, elevada resistência, baixo custo, fácil instalação e outros. Como projetistas poderão especificar produtos a partir de alegações abstratas como ‘alta, elevada, boa e superior? ”, indaga a arquiteta e urbanista Alessandra Caiado, que possui uma empresa de consultoria chamada Marketing Verde.

 

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Alessandra Caiado, da Marketing Verde – Divulgação

“Hoje o que as pessoas devem se atentar na questão da sustentabilidade é entender o que tem nos materiais antes de denominá-los como ‘verdes’, sustentáveis.  A preocupação maior é ter um banco de dados, ter informações”, ela enfatiza, comentando que cabe ao fabricante focar na comunicação correta, com transparência e a responsabilidade de comprovar seus dados. Assim, ela acredita que projetistas e especificadores poderão analisar e escolher, ponderando todas as informações possíveis.

Segundo a arquiteta, um bom ponto de partida para os fabricantes é começar comprovando que tecnicamente o produto funciona, que atende sua norma técnica específica e, de preferência, com ensaios realizados em laboratório reconhecido de terceira parte. Se não existe uma norma técnica específica (nacional ou internacional), deve ao menos selecionar e ensaiar as principais alegações de seu produto para comprovar que realmente atende ao que se propõe. Com essa análise em mãos, os fabricantes devem comunicar os resultados ao consumidor, de maneira fácil e didática.

Com o intuito de auxiliar os fabricantes tanto na elaboração dessas informações como na sua difusão entre especificadores e incentivando o mercado como um todo para a ideia de uma construção mais sustentável, o Centro de Tecnologia de Edificações (CTE) – empresa de consultoria e gerenciamento especializada em qualidade, tecnologia, gestão, sustentabilidade e inovação para o setor da construção – criou uma metodologia para o desenvolvimento de uma ferramenta de comunicação completa, simples e transparente para materiais de construção: a Tabela Ambiental.

 

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Fases da aplicação da Tabela Ambiental – CTE

 

O objetivo é expor as reais características dos materiais para o mercado, facilitando o processo de decisão com informações claras e transparentes para todos que especificam, aplicam, fazem a manutenção do produto e até para aqueles ocupam os edifícios ou compram no varejo este material.

“A Tabela Ambiental não é um selo ou certificação de produto, ela não determina se um produto é ecológico. A tabela representa, na verdade, uma foto real do produto com o objetivo principal de ser um meio de comunicação eficaz. Nela, o fabricante pode inclusive apresentar selos, certificados e resultados de análise de ciclo de vida do produto, mas, o mais importante, é reunir as principais informações técnicas e ambientais e simplificar a visualização dos dados”, afirma Alessandra Caiado, consultora deste projeto da CTE na época e que também desenvolve um conteúdo similar em sua empresa, a Ficha Ambiental.

Inicialmente é feita uma imersão no mundo do material escolhido, para mapear toda a cadeia de impacto, desde a extração da matéria-prima até o descarte, e entender quais são os atributos de escolha para aquele tipo de produto. Nessa fase, é verificada também a contribuição do produto para o atendimento de sistemas de certificações e normas de maior demanda no Brasil, como o LEED, AQUA, Procel Edifica, Qualiverde e outras.

 

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Modelo de Tabela Ambiental, desenvolvida pelo CTE

 

“Alguns atributos ambientais têm referências, por exemplo, no caso de um piso para área externa deve ser avaliado o índice de refletância solar, pois a escolha de materiais com alto índice ajuda na redução de ilhas de calor. No asfalto esse índice é próximo à zero, enquanto em um piso mais claro é quase 100, então quanto mais alto melhor. Para atender ao LEED, a referência deve ser maior ou igual a 78”, ilustra a arquiteta, comentando que apresentar esses indicadores ajuda o consumidor a ter parâmetro na hora de escolher, saber se o produto é bom ou não.

Além disso, para Alessandra cabe a cada projetista avaliar o que é mais sustentável para seu projeto, segundo a prioridade definida. “O que é mais sustentável para meu projeto? Um produto estrangeiro com muito conteúdo reciclado ou um produto nacional com pouco conteúdo reciclado? A prioridade pode ser baixa toxicidade para a pintura de um quarto e boa fixação para a pintura de uma fachada. Ambos são critérios de sustentabilidade, tanto toxicidade quanto durabilidade. Ter essas informações permite que as pessoas façam suas próprias análises”, afirma a consultora.

Alessandra alerta ainda para o uso imprudente de materiais reciclados. “Fala-se muito em fazer tijolo com bituca de cigarro ou tijolo com a lama de Mariana [resíduo do desastre ambiental causado pelo rompimento da barragem de uma mineradora]. Existe essa mania de incorporar resíduo, principalmente tóxico, em um material de construção onde você vai morar, vai habitar aquele espaço. Não há o cuidado de fazer um ensaio para ver como aquilo vai volatizar, como é o contato com a pele, como a poeira disso influência, além de perpetuar esse material tóxico quando depois ele for descartado. Não é porque vai reciclar alguma coisa que quer dizer que é bom”, diz.

Embora o desenvolvimento e adoção da Tabela Ambiental traga uma série de benefícios, tanto para os consumidores como para o mercado da construção, ainda não está na cultura do fabricante de materiais de construção essa organização das informações. “Muitas vezes os fabricantes não querem fazer para não expor uma série de problemas deles. E se o concorrente não expõe, por que ele vai expor? A transparência é um medo, mas é preciso entender que ela é o primeiro passo para uma sustentabilidade real”, revela a arquiteta.

Além disso, a tabela também funciona para poder comparar o avanço e melhoria que o material teve em relação a ele mesmo. Sendo possível, por exemplo, traçar metas de quais indicadores a empresa deseja melhorar, como reduzir o consumo de água ou de energia. Outra vantagem é proporcionar um alinhamento da comunicação dentro da fábrica, entre técnicos, gestores ambientais e equipe de marketing.

 






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