sábado , 17 fevereiro 2018
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O conto do vigário na reciclagem de RCD

O conto do vigário na reciclagem de RCD

Você já ouviu aquela história do conto do vigário? Sim, era uma disputa entre dois vigários de paróquias distintas almejando a imagem de Nossa Senhora.

Pois bem, dá para acreditar que isso inspira muita gente ainda?

Em oito anos trabalhando com a reciclagem de RCD já vi de tudo, porém o que mais seduz o empreendedor da área de resíduos são propostas fáceis e magias para o negócio.

Você já ouviu alguém falar por aí que esse negócio de reciclagem de entulho dá um “dinheirão”? Eu penso que poderia ser mais lucrativo, mas não é tudo isso que as pessoas veem.

Mas está aí uma cilada.

O curioso resolve então investir no negócio sem conhecer. Estuda o mínimo possível e já contrata alguém para levantar informações sobre o mercado. Às vezes faz por conta própria.

Diante das dificuldades primárias e também da necessidade em montar o negócio no menor tempo possível, o empreendedor cai numa armadilha: garantia de facilidade e lucratividade.

Da ideia até o início do projeto, leva tempo. Esse tempo é suficiente para entender a dinâmica do mercado, a realidade dos municípios e maturar a ideia. É bem provável que a conclusão, após inúmeros estudos de viabilidade, seja o de não investir.

Penso que o trabalho de consultor dessa área seja o mais fácil, porque se ele pesquisar o mercado da reciclagem no Brasil verá que não é um bom negócio, assim, no relatório de apresentação para um cliente a conclusão mais assertiva é não investir. Simples, seguro e direto.

O conto do vigário se aplica justamente no enviesamento da realidade, seja um consultor ou até mesmo em propostas de fornecedores e de órgãos públicos.

Promessa do prefeito é cilada.

Relatório técnico baseado em números aleatórios e sem cruzamento com dados locais é cilada.

Reportagem da TV sobre a reciclagem de entulho é cilada.

Garantia do fornecedor de equipamento pode ser uma cilada, se você der o azar de comprar o seu equipamento em anúncio na OLX ou no Mercado Livre, que, convenhamos, não é o melhor lugar para comprar um britador, uma mesa de triagem ou até mesmo implementos para a reciclagem de entulho. O ambiente de negócios dessas plataformas não é propício para a aquisição de máquinas desse porte. Aliás, inclusive, é comum empresas anunciantes desses sites não apresentarem condições de venda do produto, ou seja, o anúncio tem informações imprecisas ou incompletas, geralmente o britador/ mesa de triagem é divulgado como novo e vendido como usado.

Eu compreendo a agonia e ansiedade do empreendedor, mas é necessária muita tranquilidade e sabedoria para trabalhar com isso. Não adianta se entregar a propostas fáceis e virtualmente seguras. O discurso seguro de hoje pode não ser o mesmo daqui a quatro anos, quando haverá eleições para prefeito e vereador, assim como é muito difícil fazer com que prazos sejam cumpridos dependendo de uma miríade de documentos, atestados órgãos públicos e empresas. É insano crer que abrir uma usina de reciclagem de RCD leve menos de um ano, baseado numa experiência num setor qualquer.

A reciclagem de resíduos da construção tem seu próprio universo e incorrer nesses detalhes, inevitavelmente, fará do empreendedor só mais um.

A certeza de que o negócio é realmente viável está além de estudos e da imaginação do empreendedor, pois é preciso uma visão sistêmica do mercado de resíduos para suportar e manter sucessivas perdas em virtude da instabilidade local e de vicissitudes políticas, que em geral resultam na fragilização de empresas dessa natureza.

É… meu caro Sancho (Dom Quixote), o que vem fácil vai fácil.

 

Autor

Levi Torres, Graduado em administração em São Paulo, foi presidente da empresa júnior Radial. Liderou por dois anos a associação do setor de reciclagem de óleos e gorduras vegetais e produção de biodiesel. Em outubro de 2010, idealizou e foi um dos responsáveis pela fundação da ABRECON – Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição, a qual é coordenador, participando ativamente de comitês e grupos de trabalho que defendem o interesse do segmento de RCD. É o atual secretário do CB-18 – Comitê Brasileiro para revisão da norma técnica da ABNT para aplicação de agregado reciclado.

 

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