sexta-feira , 15 dezembro 2017
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O paradoxo da reciclagem de RCD

Boca de alimentação da usina Reciclo de Eusébio – CE

O paradoxo da reciclagem de RCD

Já falamos aqui da ideia equivocada que as pessoas têm sobre o negócio da reciclagem de resíduos da construção civil e demolição.
O engano se dá, especialmente por empreendedores, que o negócio é altamente lucrativo e viável, tanto financeiramente como tecnicamente, pois há cobrança da entrada do resíduo e venda do material britado.

É incrível, mas é sempre assim, como se tudo fosse automático, entra resíduo sai agregado reciclado, simples.

Duas questões que aqui são extremamente importantes para se avaliar uma usina de reciclagem de RCD: ela não recebe resíduo limpo e também não consegue vender toda a sua produção de agregado reciclado.

Nesse sentido, o “mito” de negócio fantástico, cai por terra, pois a partir do momento que o resíduo chega sujo, há custos altíssimos para selecionar e triar o material a fim de torná-lo possível de britar e recicla-lo.

Entulho estocado na usina Ecooqualy de Votorantim

 

Embora haja uma crescente automação no processo de recepção e triagem do resíduo, ainda a participação de operários na linha de triagem é decisiva para se produzir um agregado reciclado de qualidade.

Os custos para produzir um agregado reciclado excepcional não param por aí, no entanto depois de britado, o material é classificado (peneirado) e na pilha no estoque, ele é ensaiado em laboratórios credenciados pelo INMETRO para se certificar que o material atende as normas técnicas em vigor.

É…para quem acreditava que era um p*** negócio, está aí a conta que deve ser feita.

A questão é que ninguém para pra pensar nisso. Se fosse um negócio das Arábias, não havia tanta reclamação por parte dos empresários do setor.

Um desafio interessante, vá a loja de material de construção mais próxima de sua casa e peça ao vendedor um saco de areia reciclada. Seguramente ele vai te responder: Qué isso jovem?

Seja areia reciclada, brita reciclada ou qualquer produto oriundo da reciclagem de resíduos da construção civil, vai ser difícil encontrar alguma amostra por aí.

Reciclar entulho não é tão fácil assim, pois nesse processo estão envolvidos a recepção do material, destinação de rejeito, que custa muito para as usinas, britagem e classificação, que além de energia consumida, tem o desgaste dos decks.

É exatamente por isso que muitas usinas não recebem outro tipo de resíduo, se não o inerte, e em alguns casos, apenas o inerte cinza. O custo de triagem e destinação, caso seja um resíduo heterogêneo (misturado), é muito alto, o que encareceria o valor do agregado reciclado.

As pessoas acham que as usinas de reciclagem devem receber qualquer tipo de material. É incrível, porque, embora o licenciamento seja apenas para resíduos inertes, os empreendimentos sofrem pressão de geradores e de órgãos públicos para receber tudo, até resíduo contaminado e perigoso.

 

Qualidade do entulho que chega às usinas de reciclagem de RCD

 

Receber material que não seja o core business da usina de RCD é cilada!

Portando, o negócio da reciclagem de resíduos da construção civil é um paradoxo, pois, em teoria, a usina deveria receber resíduo da construção limpo, mas não recebe. Deveria vender o agregado reciclado, mas não o vende, pois não há um mercado tão grande que absorva este material.

Então, prezado empresário, antes de entrar no segmento, busque conhecimento, como diz o célebre ET Bilú lá de Corguinho – MS

 

Autor

Levi Torres, Graduado em administração em São Paulo, foi presidente da empresa júnior Radial. Liderou por dois anos a associação do setor de reciclagem de óleos e gorduras vegetais e produção de biodiesel. Em outubro de 2010, idealizou e foi um dos responsáveis pela fundação da ABRECON – Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição, a qual é coordenador, participando ativamente de comitês e grupos de trabalho que defendem o interesse do segmento de RCD. É o atual secretário do CB-18 – Comitê Brasileiro para revisão da norma técnica da ABNT para aplicação de agregado reciclado.

 

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