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O que dá certo na reciclagem de resíduos da construção?

reciclagem de resíduos
Usina de reciclagem de resíduos da construção de Vila Velha – ES

O que dá certo na reciclagem de resíduos da construção?

Trabalho há sete anos com a reciclagem de resíduos da construção e demolição, seis deles na Abrecon.

Desde 2010 recebo no escritório da Associação potenciais empreendedores dispostos a investir no negócio da reciclagem de RCD, sempre com uma visão extremamente corrompida do negócio, a maioria vem à reunião muito distante da realidade, imaginando “ganhar” rios de dinheiro com a ideia incrível.

Pois não seria diferente, olha só, cobrar para receber o entulho e vender o material reciclado. Por que eu não pensei nisso antes… seria rico!

Mas rapaz, essa “coisa” está fácil demais, diria um cauto.

Infelizmente, 90% dos potenciais investidores desistem da ideia já no primeiro ano. O restante leva mais tempo do que o previsto, quando não fecham as portas e retornam para os seus empreendimentos de origem.

A reciclagem de resíduos da construção civil e demolição é um negócio que atrai muito curioso. É incrível o número de pessoas que se lançam nesse setor, não imaginando a natureza das dificuldades para receber o entulho e para vender o agregado reciclado.

Para uma parcela ínfima de investidores, há uma pesquisa com levantamento de dados para tomar a decisão de entrar no mercado de RCD ou aguardar o melhor momento, porém, ainda certo de que a ideia é “revolucionar” o segmento da reciclagem.

Há seis anos eu ouço isso: “Nós vamos revolucionar o mercado de RCD”. Promessas, promessas e mais promessas.

 

Como diz uma música dos Racionais MC’s, “quem tem boca fala o que quer para ter nome…”

 

Se contar, desde a fundação da Abrecon até hoje, já recebi aproximadamente cinquenta pessoas dispostas a investir na reciclagem de RCD. Destas, acompanhadas pelo mapeamento da Associação, oito se tornaram usinas de reciclagem e algumas estão em operação.

O saldo disso tudo é este artigo e também a noção de sucesso de um empreendimento. Não é necessário revolucionar o segmento da reciclagem de RCD, muito menos fazer diferente de todos. O sucesso de uma usina de reciclagem é apenas receber resíduos e vender o agregado reciclado. Receber bem e vender bem.

Eu digo isso em virtude da vaidade dos empreendedores. Se lançam num empreendimento para fazer diferente e acabam fazendo exatamente a mesma coisa, muito diferente da filosofia apresentada.

Tudo poderia ser evitado estudando o segmento da reciclagem e entendendo melhor o negócio.

Nada é fácil, e não vai ser na reciclagem de entulho que o empreendedor vai encontrar um ambiente calmo e complacente.

Mais interessante ainda é a estratégia da maioria dos empresários ao entrar no negócio. Com uma ideia incipiente do setor, eles pensam em compensar a dificuldade em se vender o agregado reciclado produzindo tijolo ecológico com o material resultante da reciclagem de resíduos da construção e demolição.

Pronto! Se o problema é a venda do agregado reciclado, então vamos fazer bloco ou tijolo ecológico para esse negócio ser lucrativo. Genial!

Antes o problema era a usina, agora é a usina e a fábrica de bloco ou tijolo.

Existe um problema pungente, que não é exclusivo do nosso setor, mas que precisa ser corrigido urgentemente pelo simples fato de economizar energia e poupar recursos preciosos.

Dessas usinas de reciclagem de RCD que fecharam nos últimos tempos por não suportarem o ambiente mais hostil e a construção civil mais fraca, uma significativa parcela sucumbiu exatamente no amadorismo e na falta de foco.

Sabemos das dificuldades do mercado de agregado reciclado e recebimento de resíduos da construção civil, mas qualquer estudo ou análise de viabilidade chegaria a seguinte conclusão: uma usina de reciclagem de entulho só é viável se houver integração na cadeia, ou seja, a mesma empresa dominar algum elo da construção civil, preferencialmente todos. É muito mais fácil receber o entulho se a empresa de caçamba pertencer ao mesmo grupo da usina de RCD.

Da mesma forma, é mais fácil escoar o agregado reciclado se a construtora for do mesmo grupo empresarial que a usina.

A usina de reciclagem de RCD sozinha e sem integração ou parceria vai continuar tendo os mesmos problemas: dificuldade em vender o agregado reciclado e a receber o resíduo da construção civil.

Por ora, esse é o negócio ideal, pois há uma evolução nas discussões quanto a responsabilidade do gerador sobre o resíduo, fazendo com que a construtora ou a demolidora, que são os geradores, contratem o destinatário final, desonerando o transportador e reduzindo o descarte incorreto de entulho.

 

 

Autor

Levi Torres, Graduado em administração em São Paulo, foi presidente da empresa júnior Radial. Liderou por dois anos a associação do setor de reciclagem de óleos e gorduras vegetais e produção de biodiesel. Em outubro de 2010, idealizou e foi um dos responsáveis pela fundação da ABRECON – Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição, a qual é coordenador, participando ativamente de comitês e grupos de trabalho que defendem o interesse do segmento de RCD. É o atual secretário do CB-18 – Comitê Brasileiro para revisão da norma técnica da ABNT para aplicação de agregado reciclado.

 

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