sábado , 17 fevereiro 2018
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Resíduos sólidos: grupo de trabalho da Abimaq contribui com a construção sustentável

resíduos sólidos
Marcello Casal Jr – Agência Brasil

Resíduos sólidos: grupo de trabalho da Abimaq contribui com a construção sustentável

Para que continue a dar passos positivos em direção ao crescimento, a construção sustentável depende não só de fatores econômicos e de investimentos no setor, como da parceria de outras esferas do mercado. Dentre elas, está a indústria de resíduos sólidos, segmento que pode ser vital à evolução da arquitetura verde, especialmente pela chamada economia circular, fazendo uso de materiais reciclados obtidos da geração de seus próprios substratos. Esse foi um dos motivos que levou o TEM Sustentável a criar a nova subseção “Resíduos Sólidos”.

 

resíduos sólidos

 

Integrante da seção “Reciclagem” do site, ela trará regularmente dados, novidades e informações interessantes ligadas ao setor e à sua contribuição com nosso segmento. Para estreá-la, entrevistamos Paulo Da Pieve, diretor do Grupo de Trabalho de Máquinas e Equipamentos para Resíduos Sólidos (GTRS), a mais nova parceria firmada pelo TEM e que faz parte da Câmara Setorial de Máquinas e Equipamentos para Cimento e Mineração (CSCM) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Confira!

 

Paulo Da Pieve
Paulo Da Pieve

TEM Sustentável: Quais são os desafios e a finalidade do Grupo de Trabalho de Máquinas e Equipamentos para Resíduos Sólidos da Abimaq?

Paulo Da Pieve: A atuação do GTRS foi iniciada há dois anos com o objetivo de adensar a cadeia produtiva do setor de resíduos sólidos. Isso significa que a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos é esperado o desenvolvimento da indústria nacional de reciclagem. E é justamente esse um dos pilares do nosso Grupo, pois com isso surge uma grande oportunidade aos fabricantes de equipamentos para que possam fornecer seus bens de capital para esse mercado. Atualmente, o Brasil tem capacidade instalada e técnica de fornecer talvez até mais de 90% de todas as tecnologias aplicadas nesse segmento.

Outro ponto fundamental do GTRS é a questão da viabilidade econômica desse mercado. Para se ter ideia, a Europa está há 30 ou 40 anos à nossa frente, pois toda a reciclagem realizada no país é subsidiada pelo governo e comunidade europeia. Esse tipo de ação é o que viabiliza os negócios na área; por mais apelo social e ambiental que a reciclagem tenha, inclusive aos olhos dos investidores, se faz necessário que a matéria-prima secundária, isto é, aquela que é reciclada, seja economicamente viável. Por isso, o Grupo também trabalhará fortemente com a finalidade de reduzir a carga tributária para os materiais reciclados. Hoje, um produto reciclado agrega no valor final até duas vezes todos os seus custos e os impostos para ser processado.

Tenho a percepção de que o mercado de reciclagem de resíduos sólidos demanda uma grande colaboração de outros setores. Ou seja, o que é resíduo para uma indústria, pode ser matéria-prima para outra. Um bom modelo é o nicho ligado às barragens das mineradoras, que por meio de processos inovadores poderia reduzir a quantidade de rejeitos, utilizando-os para a fabricação de algum insumo da construção civil ou mesmo materiais tecnológicos. Na Alemanha, por exemplo, desde quando se iniciou a aplicação da parte orgânica para se criar CDR (combustível derivado de resíduo) foi criado um produto que passou a ser vendido para a indústria do cimento. Mas há alguns anos, ocorria lá o mesmo que ainda ocorre no Brasil: muitas empresas pagam uma cimenteira para queimar o seu resíduo. Para mudar essa nossa realidade, o GTRS planeja criar uma bolsa virtual de resíduos sólidos para os associados da Abimaq que, no futuro, poderá se estender a outras empresas.

 

resíduos sólidos
Resíduos sólidos da construção civil – BQ Magazine

 

TEM Sustentável: E como funcionará esse projeto?

Paulo Da Pieve: A indústria que tiver uma espécie de resíduo, por exemplo, toneladas de sucata metálica, poderá inserir em nosso site os dados do material, contatos e um valor de referência para quem tiver interesse poder negociar por um canal exclusivo. Qualquer valor obtido na negociação desses resíduos sólidos – que servirão de matéria-prima para alguém –, resolverá o problema de uma das partes, com grandes chances de reduzir os custos da outra. São em iniciativas como essa que estamos trabalhando para fazer com que o nosso ramo seja ainda mais positivo em termos econômicos, sociais e ambientais.

 

TEM Sustentável: Quais outras atividades estão sendo realizadas ou ainda serão pelo GTRS?

Paulo Da Pieve: Além das ações já citadas, passamos a trabalhar em conjunto com a Waste Expo Brasil com a ideia de termos uma feira cada vez mais forte no setor de resíduos sólidos. Isso só reforça que a Abimaq é a casa certa para poder alavancar a indústria de reciclagem, e por uma questão muito simples: cerca de 350 associados da entidade são potenciais fornecedores para essa cadeia. Sem contar as tecnologias que ainda não estão disponíveis no país, mas que podem ser fabricadas aqui. Partindo desse cenário, outra atividade nossa será batalhar para que, sempre que um empreendimento tiver investimento com capital também público, parte de seus equipamentos sejam comprados no Brasil. Na minha opinião, esse deve ser o papel dos bancos de desenvolvimento, estimulando o crescimento do mercado nacional; as indústrias de bem de capital são uns dos pilares da competitividade do país, mas que em contrapartida é baixa devido aos seus altos custos, taxas de juros impeditivas e um pátio fabril extremamente antigo. Enquanto alguns setores e pequenos grupos são favorecidos e batem recordes de lucro, a indústria pena. Daí nossa briga por uma política nacional que favoreça também nossa manufatura local e seja baseada em um custo competitivo com outros países, fortalecendo a inovação de fato. O foco é fazer com que mais empresas de pequeno e médio porte tenham acesso a linhas de crédito dos bancos de desenvolvimento, pois acredito que essas são as companhias que mais empregam.

Outro aspecto a ser trabalhado pelo Grupo é o estímulo às exportações de tecnologias para a reciclagem, uma vez que o setor de resíduos sólidos não tem crescido somente no Brasil. Toda a América do Sul e Latina, que são o maior destino de todas as nossas exportações de bens de capital, também estão em desenvolvimento e o país não pode deixar passar essa oportunidade. Temos uma capacidade instalada e ociosa que trabalha hoje com um nível de utilização em torno de 60%, o que prova que esse nosso objetivo é totalmente possível de se alcançar. Porém, antes de tudo, para que a exportação seja favorecida, é necessário um câmbio estável, possibilitando o planejamento. A indústria de resíduos sólidos é uma indústria em expansão, com um mercado ainda não consolidado, mas com tudo para crescer, bastam certos arranjos, incentivos governamentais e mudanças na legislação tributária.

Uma questão igualmente importante e, sobretudo, crítica é a lei defasada que existe hoje no Brasil e que, mesmo sendo discutida nos últimos 20 anos, há tanta demora na aprovação, que quando aprovada muita coisa já se tornou obsoleta. A legislação ligada à nossa indústria diz que todos os municípios devem reciclar os materiais aptos para tal, destinando o restante para aterros sanitários controlados. Acontece que, em países desenvolvidos, já não são permitidos nem mesmo os aterros, sendo feita a sua mineração. Isso prova a desigualdade existente nesse nosso setor: vemos municípios que ainda têm lixões a céu aberto e, ao mesmo tempo, casos em que as administrações não concederão mais licenças para novos aterros em função das distâncias, que encarecem o processo, e por isso também já iniciaram sua mineração para poder reciclar o que ali foi depositado no passado. Mas isso demanda tecnologias que ainda não temos aqui no Brasil e aí está mais uma das ações a serem planejadas e praticadas pelo GTRS. Estamos engajados nessa luta para, inclusive, conscientizar nossos associados sobre a importância do tema.

 

resíduos sólidos
nossoambientedireito.blogspot.com

 

TEM Sustentável: Quem dará vida a essas ações e qual é o papel de cada um dentro do Grupo de Trabalho?

Paulo Da Pieve: O GTRS é constituído pelos potenciais fornecedores para essa cadeia de resíduos sólidos. Temos empresas que já estão bastante adiantas em alguns projetos, até mesmo já atuando em atividades específicas. Aos poucos sentimos a necessidade de atuarmos em outras frentes, também trabalhando em conjunto e nos aproximarmos das demais associações que estão ligadas a nós, como a Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (ABRECON) e a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST), dentre outras.

 

TEM Sustentável: Sobre o futuro do GTRS, quais são os próximos passos e perspectivas?

Paulo Da Pieve: Nosso primeiro objetivo futuro é aumentar o número de participantes para que o Grupo de Trabalho de Máquinas e Equipamentos para Resíduos Sólidos se torne uma câmara setorial, atraindo também os associados da Abimaq já existentes para que participem mais ativamente. Além disso, queremos despertar nos envolvidos com o mercado de resíduos sólidos que os modelos de negócios hoje implementados não favorecem a reciclagem, porque as concessionárias de lixo ganham pela quantidade de detrito transportado, o que não desperta o interesse em reciclá-lo. Esse padrão já se mostrou extremamente danoso para a reciclagem e não seria assim se houvesse um percentual pago caso a concessionária reciclasse mais.

 

resíduos sólidos
jornaljoseensenews.com.br

 

A questão social também é um dos nossos focos. Os catadores são hoje os que realmente fazem a reciclagem em nosso país, mas eles não têm capacidade de produção para fazê-la em uma escala de qualidade compatível ao que a indústria de resíduos sólidos demandará futuramente em relação à sua matéria-prima secundária. Atualmente, só 4% do material que pode ser recuperado de fato é reciclado; é um número baixíssimo, visto que os 96% restantes vão para os aterros. Isso quando se fala somente do que é coletado, pois tem uma parte do lixo que nem sequer é coletada. É vital conscientizar os cooperados de que a indústria não veio para os combater; aliás, eu sou a favor de destinar uma parte da venda do material secundário triado por plantas automatizadas para a educação dos filhos desses catadores. O trabalho social necessário a ser feito é o de transformar a família dos cooperados em qualificação futura, sem jamais se esquecer de que eles devem ser preservados.

Tem muita gente engajada nessas transformações e, assim como elas, me encanto cada vez mais pelo tema resíduos sólidos e quero contribuir no que for preciso com esse setor. Nosso alvo é deixar um mundo mais sustentável para as próximas gerações. Muito se tem a fazer, mas a ideia é preservar o que se pode hoje e não só “consertar” o que já foi prejudicado!

 

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